terça-feira, 23 de março de 2010

textos tensos para uma noite de outono regada a cafeína.

Abri a porta da frente rapidamente, algo me dizia que estava atrasada. A pressa foi mais rápida do que a necessidade de não molhar as roupas, enfiei-me debaixo do fluxo intenso de chuva e corri até a rua de baixo.
Havia uma movimentação não comum para dias de semana, ainda mais naquele horário, achei mais suspeito ainda quando o som da chuva parou e pude escutar a sirene de uma ambulância. Aquilo não fazia sentido, não havia nenhum acidente, nenhum ferido, por que todos me olhavam? Segui o olhar de todos, estavam olhando para o chão sob meus pés, gotejava sangue de algum lugar que eu não conseguia identificar, olhei pra cima buscando algum corpo nas árvores, pensei em todas partes de meu corpo imaginando onde estava a ferida. E então lembrei de uma dor constante, a qual ignorar havia se tornado meu passatempo, minha necessidade. Eu me tornei tão boa nisso que nem sentia mais, era como uma dor crônica com a qual você passa a sua vida inteira convivendo, ela não deixa de existir, mas passa a não ser notada.
Coloquei as mãos sobre o peito, esperando estancar o sangue, mas de nada adiantou. Doía como nunca, era como se toda dor que eu ignorei durante anos estivesse unida em um momento só, deixando então que todos soubessem de sua existência, todos sentissem um pouco de culpa e remorso, todos que não sorriram quando eu passei por aquela maldita rua, todos que olharam torto, todos que riram, todos que pensaram coisas ruins, todos que acharam que eu não me importava com nada disso, todos olhavam assustados e alguns até com pena. Eles não deveriam saber disso, ninguém deveria. Mas então a trilha de sangue já estava trilhada, o que eu poderia fazer? Deixar que a ambulância me levasse e me curasse daquilo? Ou voltar para casa, fazer curativos vagabundos e esperar que eu consiga voltar a conviver com ela, e que as pessoas esqueçam que essa manhã existiu?
Levando em consideração que eu já conhecia a segunda opção, enquanto a primeira eu não faria idéia de como seria, e lembrando que minha vida não seria a mesma sem aquela dor que já fazia parte de mim, parte do que sou, a dor me tornou quem eu sou, quem eu seria sem senti-la?

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