sábado, 26 de janeiro de 2013



Desfaça-me. Reparta-me. Transforme-me em pó, em rastros de tempos passados, em frangalhos daquilo que não volta, daquilo que da pele há muito se desprendeu. Transporte-me para longe de minha alma, desencontre meu corpo e reencontre a calma.
Não quero isso que sou, não quero isso que fui. Desapareça com meu ritmo, minha voz, meu cansaço. Não quero meu rosto, minhas mãos, meus joelhos, braços e cabelos. Quero tornar-me esse vazio que se espalha, essas frases soltas sem sentido algum.
Abandone minhas partes em diversos pontos da estrada. Certifique-se de que nunca se encontrem, de que se bordarão a restos de outras almas, que serão tudo ainda que em essência resumam-se ao nada.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Aquele velho discurso que entre lágrimas você tanto ensaia no espelho embaçado do banheiro. Aquela mesma carta que há anos habita o lado esquerdo da última gaveta do criado-mudo. Aquela frase que seus ouvidos imploram há meses que seja dita. Aquele sufoco que só em teu corpo parece existir.
Aquele vazio entre teus braços, aquela mesma saudade do que inexiste. Aquela esperança abafada de que passe, que notem, que resolvam, que se importem. Aquela eterna colisão entre teu corpo e tua alma. Aquele antigo medo de não ser tudo, de ser nada. Aquele ódio contido, aquele abraço que não foi dado. Tendo medo do escuro e medo do claro.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

"- Compreendo que isso o deixe intrigado. Mas, não, Sir Tode é do mesmo mundo que o seu... apenas não como o mundo é hoje. Ele nasceu quando o litoral era repleto de possibilidades: dragões, bruxas e tudo mais. Isso foi antes que a razão assumisse. Agora, Sir Tode é tudo que resta - sua voz ficou mais triste. - Uma relíquia de uma era passada."
Ladrão de Olhos - Jonathan Auxier
"O pulso de Peter acelerou. Se havia algo que adorava em seu trabalho era arrombar cadeados. Considerava cada um deles um desafio pessoal. Por definição, cadeados são projetados para lhe dizer o que você não pode fazer. Você não pode ter a comida de dentro do baú. Você não pode fugir desse porão. Você não pode descobrir o que há dentro desta carruagem. Cada cadeado aprisionava um tesouro que exigia ser libertado, e Peter sempre ficava feliz ao ser compelido a fazê-lo."

Ladrão de Olhos - Jonathan Auxier

terça-feira, 18 de setembro de 2012



“Eu me vi sozinha na floresta, a neve caía, a luz brilhava num azul misterioso entre as árvores escuras.  Esse lugar eu conhecia muito bem. Tinha sonhado com ele muitas vezes desde que voltara à rua da Ponte. Foi aqui que mataram o raposo.
Ouvi a trompa do caçador soar e comecei a correr. Estava no meu pesadelo, mas desta vez sabia que não haveria despertar.
Ah, como eu corri. Escorreguei, tropecei, caí, levantei  de novo e continuei até, exausta, não poder  mais prosseguir. Meu hálito subia como o vapor de uma panela fervendo. Fiquei congelada de medo, os olhos fechados, esperando ser apenas uma luz azul, sabendo no meu coração que não era.”

Coriandra, Sally Gardner.
 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012



Mais uma vez, encontro-me sobre o assoalho encardido, encolhendo-me enquanto, um a um, os fantasmas retomam seus lugares entre a velha mobília. Caminham com seus pés pesados sobre meu quadril e pernas, ecoam seus gritos pela penumbra, arranham com suas unhas imundas meus braços, tornozelos e mãos. Dissipam-se pelos móveis, escondendo-se e reaparecendo com um fluxo inconstante.
E, de repente, é como se jamais tivessem desaparecido. De repente torno-me outra vez apenas rastros de guerra, apenas mais um corpo entre tantos outros corpos no campo de batalha. Suas vozes agudas ecoam por cada fresta, seus olhares queimam cada palmo de pele, seus pesos comprimem-se contra o meu, abafando-me, assombrando-me.
Apenas uma pilha de ossos sob os livros que caem da estante. Apenas um reflexo distorcido no espelho.  Apenas uma borboleta presa em um vidro de conserva esperando que suas 24 horas não acabem antes que tenha a chance de escapar.
Seus risos dançam pelo ar pesado, suas respirações frias beijam minha nuca úmida, suas mãos ásperas sobem por minhas coxas, recuperando, parte a parte, as partes de mim que um dia pensei ter.


Sentada outra vez em frente à vidraça, observando, por entre seus olhos embaçados, as gordas gotas de chuva encontrando com o vidro. Já era tempo de estar lá fora, sendo um desses corpos inconstantes em seus guarda-chuvas floridos, sendo uma dessas vozes indecisas que vem e voltam entre as esquinas. Já era tempo de abrir as portas, calçar suas botas, lavar o rosto e deixar a vida entrar.
Já era tempo de jogar fora seus discos arranhados, limpar os rabiscos das paredes, desaparecer com os arranhões em seu corpo. Já era tempo de ter companhia, de desfazer seus segredos, de deixar que coloquem açúcar em seu chá. Já era tempo de saber, de conhecer, saborear e entender.
Já era tempo de deixar de fugir, de cessarem as cartas de adeus. Já era tempo de esvaziar as gavetas, de ter trocado as partituras sobre o piano, de ter tirado o pó da lareira. Já era tempo de existir, de esquecer-se de desaparecer.
Já era tempo de ter vencido, de ter dado por encerrada a guerra em seu coração. Já era tempo de não haver mais gritos, de ter se desfeito da armadura enferrujada que esconde no porão. Já era tempo de ter braços aninhando-a, de ter canções de ninar sendo sussurradas pelas madrugadas frias. Já era tempo de não pedir mais por socorro, já era tempo de não existir mais solidão.
Já era tempo. Já era o tempo. A vida já foi. E ela... Ela ficou.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Em meus braços aninhava-se, tão pequena, tão frágil e despedaçada. Encolhia-se em seu pijama largo e manchado, olhando-me nos olhos como quem pergunta que caminho seguir. E não havia nada, nada que eu pudesse fazer. Não havia nada que pudesse ser dito, nada que fizesse sarar suas grandes pequenas feridas, seus enormes e cheios vazios.
Apenas a apertava em meus braços, acariciando seus cachos, beijando-lhe as lágrimas. Sussurrava canções de ninar ao pé de seu ouvido, roçando meus lábios suavemente em sua nuca e ombros, tomando suas ásperas e frias mãos, e esperando que passasse, que acalmassem seus frios demônios, que dessem passagem para seu riso rouco.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

I'm leaving today, so why don't you care? I am afraid, i am afraid.
I DON'T WANNA BE ALONE.
I DON'T WANNA BE ALONE.
I DON'T WANNA BE ALONE.
I DON'T WANNA BE ALONE.
I DON'T WANNA BE ALONE.